A ONDA: Uma importante aula sobre o fascismo
Maria Ieda da Silva¹
Graduada em Geografia pela
Universidade do estado da Bahia
Pós- graduanda em Análise do
Espaço Geográfico pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia
O Filme alemão “A Onda” traz em
seu cerne uma discussão de como a ideologia política totalitária de direita é
capaz de confiscar um grupo de indivíduos a uma servidão voluntária para além
de um uniforme adotado, de uma identificação estilizada, de cumprimentos e
outros comportamentos definidos ali na classe. Esta “troca de liberdade” nos
permite de certo modo uma reflexão séria, razoável, que nos faz pensar como a psicologia
de massa está presente no mundo atual, e, sobretudo, como os fenômenos de
fanatismo, de intolerância podem se tornar perigosos se valendo de métodos
antidemocráticos como a censura, perseguições, prisões, etc.
Em outras palavras, “A Onda” traz a discussão em meio a
uma notável divisão ideológica na atmosfera da Alemanha, entre os confrontos
com o nazi-fascismo a partir de questionamentos nefastos no exercício de uma
autocracia e sua prática perversa em uma arriscada experiência pedagógica semanal
que consistem em reproduzir na sala de aula alguns slogans do nazismo como
Poder, Disciplina e Superioridade.
Sob uma psicologia de massa e o
perfil de um líder carismático, o professor mantém se a frente do grupo com
características próprias definidas por eles e de seus rituais que passam a conscientizar
os estudantes sobre o poder doutrinário dos movimentos ideológicos políticos.
De imediato, há uma formação
homogênea do grupo que são atraídos pela proposta de igualdade, e pelo novo
sentido de luta. Entretanto, seus métodos de incentivar os alunos a pensarem
por si mesmos criam um choque com a direção do colégio e com a sociedade
principalmente quando os alunos passam a espalhar o movimento pela cidade,
através de pichações, em atos potencialmente intolerantes e criminosos.
O instinto de sobrevivência do movimento,
se assim posso me expressar, vem a tona quando o professor em seu discurso
percebe que já perdeu o controle da situação, citando como referência o risco
do sujeito de perder a sua “liberdade” submetendo-se incondicionalmente ao
poder do grupo. Em seu fala do professor Ross, proferiu no final de “A onda”:
“Vocês
trocaram sua liberdade pelo luxo de se sentirem superiores. Todos vocês teriam
sido bons nazi-fascistas. Certamente iriam vestir uma farda, virar a cabeça e
permitir que seus amigos e vizinhos fossem perseguidos e destruídos. O fascismo
não é uma coisa que outras pessoas fizeram. Ele está aqui mesmo em todos
nós. Vocês perguntam: como que o povo alemão pode ficar impassível enquanto
milhares de inocentes seres humanos eram assassinados? Como alegar que não
estavam envolvidos. O que faz um povo renegar sua própria história? Pois é
assim que a história se repete. Vocês todos vão querer negar o que se passou em
“A onda”. Nossa experiência foi um sucesso. Terão ao menos aprendido que somos
responsáveis pelos nossos atos. Vocês devem se interrogar: o que fazer em vez
de seguir cegamente um líder? E que pelo resto de suas vidas nunca permitirão
que a vontade de um grupo usurpe seus direitos individuais. Como é difícil
ter que suportar que tudo isso não passou de uma grande vontade e de um sonho”.
Na sua fala, o professor Ross deixa
bem claro que a crença submissa e cega de muitos, são os pontos de partida para
o encobrir o apego ao poder, a falta de ética, o oportunismo, os abusos
cometidos por uma ideologia que se transformou em uma mercadoria que
infelizmente se multiplica na escala destes movimentos ideológicos, religiosos
e políticos na sociedade.
Esses entendimentos, elaborados a partir do filme, embora aparente a submissão
do sujeito às regras do grupo, mostrados como sendo o eixo central da trama, reforçam
com a própria formação da Onda, onde todos tornaram se facilmente influenciados
por normas de conduta, espírito coletivo, disciplina na busca de um bem
maior e a perda deste controle ao incorporar a indiferença e a crueldade com
seus semelhantes. O filme “A onda” deve se está em debate no contexto da sociedade atual e se torna
essencial para professores, estudantes, universitários e militantes, assim como
para todos os que buscam uma compreensão profunda e rigorosa dos fenômenos
massificadores. A Onda é um convite irrecusável, não deixem de assistir a este
filme (se é que já não assistiram).

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